1. Introdução

O Cuidado Paliativo utiliza uma visão humanitária de cuidados com o enfermo em estado terminal, possibilitando o alívio de sua dor e sofrimento. Proporciona uma assistência interdisciplinar ao paciente e aos familiares que compartilham deste processo de terminalidade da vida. O trabalho do psicólogo na equipe interdisciplinar consiste em atuar nas desordens psíquicas que acometem o doente e sua família nas diversas fases do tratamento, proporcionando escuta ativa e acolhimento para reconhecer as reais necessidades do paciente e de sua família.

Além disso, este profissional deve possuir uma boa linguagem verbal e não verbal para que seja instituída uma relação de empatia e confiabilidade com os familiares e o enfermo. A presença de doenças crônicas, como câncer e as neurodegenerativas, levam o idoso a necessitar de cuidados paliativos e impõe sobre o cuidador familiar sentimentos complexos e ambivalentes. A proximidade da morte do idoso colabora para intensificar estes sentimentos, mas possibilita ao cuidador resignificar como vivência esta experiência.

Assim, o familiar é um facilitador do tratamento diferenciado ao paciente, pois pode possibilitar o surgimento de relações solidárias, e responsáveis. Este estudo tem como objetivo analisar os aspectos psicológicos percebidos nos familiares de pacientes idosos em cuidados paliativos.

2. Metodologia

Trata-se de uma revisão integrativa de publicações consultadas na base de dados do SciELO, e do LILACS, publicadas entre 2010 e 2013. Para a busca foram utilizados os seguintes descritores: “familiares, idosos, Psicologia, Cuidados Paliativos, cuidadores, equipe interdisciplinar, terminalidade, cuidados para prolongar a vida, assistência paliativa; cuidados críticos; doença crônica, enfermagem familiar, assistência domiciliar, morte, humanização.”

3. Resultados e Discussões

Alguns dados apurados nestes artigos indicam uma prevalência do papel de cuidador ser atribuído às mulheres. Segundo alguns autores, em 98% dos casos pesquisados, o cuidador era alguém da família, predominantemente do sexo feminino. A maior parte era formada de esposas, seguidas pelas filhas. As noras e as irmãs não foram frequentes. O esforço físico exigido pelos pacientes levam a inferir que grande parte dos familiares são doentes em potencial e que sua capacidade funcional está em constante risco como dores lombares, depressão, pressão alta, artrite, reumatismo e problemas cardíacos.

Em decorrência desta dependência física, muitos familiares optam por internar os idosos em asilos ou casas de repouso. A situação em que o idoso se encontra frente o adoecimento, influencia o processo de cuidados paliativos. Há uma prevalência de sentimentos e significados negativos e positivos vivenciados pelo familiar perante o cuidado prestado ao idoso. Dentre os sentimentos positivos destacam-se: zelo, carinho, gratificação. Estes aspectos tornam a relação entre cuidador e doente mais afetuosa e estimulam a presença contínua com o ente querido em sua finitude.

No que se refere aos sentimentos negativos podemos citar alguns como: tristeza, incômodo, angústia, sintomas depressivos, preocupação, sensação de impotência e inquietação. Circunstâncias em que os pacientes não possuem bom vínculo familiar, onde o cuidador teve o seu papel imposto como obrigação social acarretam relações conflituosas que afetam ambas as partes. O fato de saber que o paciente está próximo da morte acaba intensificando estes sentimentos, primeiro por viver na espera da noticia do falecimento e também o confronta com seus próprios limites.

A experimentação destas emoções pelo familiar está relacionada com características prévias do adoecimento como, por exemplo, o relacionamento preliminar entre cuidador e paciente; o tempo de cuidado; crenças religiosas e espiritualidade; avaliação subjetiva do cuidado e rede de suporte social que o cuidador dispõe para ajudá-lo, dentre outros. Alguns fatores podem gerar uma sobrecarga no familiar cuidador como a imposição deste papel atribuído por outros membros da família, a falta de apoio dos outros familiares, o grau de dependência do enfermo relacionado à patologia e o desgaste físico e psicológico.

A sobrecarga vivenciada por estes cuidadores geram alterações significativas representadas por sintomas de tristeza, estresse, apatia, baixa autoestima, causando dificuldade no ato de cuidar, interferindo diretamente na qualidade do cuidado e grande impacto na vida social do cuidador.

Tal impacto se expressa através de comportamentos de isolamento, distanciamento dos amigos, auto negligenciamento e o surgimento de mais problemas de saúde comparando a pessoas da mesma idade que não são cuidadores. As alterações biopsicossociais vivenciadas pelos familiares cuidadores também são evidenciadas na renda familiar devido ao aumento de gastos com o idoso, ocorrendo consequentemente desdobramentos adicionais de outros membros da família no sentido de gerar uma nova fonte econômica para suprir a perda da fonte financeira causada pela impossibilidade do cuidador poder trabalhar. O sofrimento e os desafios de cuidar de alguém sem perspectiva de cura possibilita aos cuidadores desenvolverem autoconhecimento e descobrirem potencialidades desconhecidas para enfrentar a situação.

Durante este processo, surgem adversidades como ausência de conhecimentos técnicos, alterações emocionais, desgaste físico e dificuldades financeiras que levam o familiar a criar alternativas que mudam a sua maneira de viver, na tentativa de superar as dificuldades da melhor forma possível. A possibilidade da morte pode estimular a busca por novos significados e sentidos para a vida, levando a uma mudança de comportamento por parte do cuidador que passa a desenvolver e expressar novas atitudes, novos hábitos, valorizando outras prioridades.

Os significados atribuídos ao processo de eminente luto geram expectativas nos cuidadores em relação ao futuro do paciente. Cuidadores que encaram o adoecimento de forma mais madura apresentam uma tendência à aceitação da morte e conformam-se com a situação, investindo em uma relação mais afetuosa com o idoso. Os familiares que não aceitam a morte do paciente tendem a manter uma esperança de cura vivenciando sentimentos de angustia que causam conflitos internos, por não saberem lidar com a perda inevitável.

4. Conclusão

Pode-se inferir que os aspectos psicológicos dos familiares cuidadores de idosos em Cuidados Paliativos sofrem muitas alterações que dependem do contexto social, histórico e cultural em que ele está inserido. O processo do adoecer e do luto despertam no cuidador uma ambiguidade de sentimentos variando entre medo, raiva, impotência e insegurança à zelo, carinho e gratificação do cuidar, estando mais relacionado a um estado de perda e separação do que um processo natural da vida. Tais características remetem a necessária inclusão e mobilização por parte de toda a família, com o auxílio de um psicólogo, proporcionando apoio e suporte no transcorrer do processo de adoecimento ao cuidador intitulado.

Sobre os Autores:

Jennifer Mendes Soares - Graduanda em Psicologia na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), bolsista de Iniciação Científica CNPQ.

Tatiana Matos Coelho - Graduanda em Psicologia na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), bolsista de Iniciação Científica BIC, estudante de especialização em Luto no Indivíduo e na Família pelo CEFI, com aperfeiçoamento em Terapia Cognitiva Comportamental.

Referências:

OLIVEIRA, Érica Arantes de; Santos, Manoel Antônio dos; Mastropietro, Ana Paula (2010), “Apoio psicológico na terminalidade: ensinamentos para a vida”. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 235-244.

FONSECA, Anelise Coelho da; Junior, Walter Vieira Mendes; Fonseca, Maria de Jesus Mendes da (2012), “Cuidados paliativos para idosos na unidade de terapia intensiva: revisão sistemática”. Rev Bras Ter Intensiva, 24(2): 197-206.

SALES, Catarina Aparecida; D’Artibale, Eloana Ferreira (2011), “O cuidar na terminalidade da vida: escutando os familiares”. Cienc Cuid Saude. 10(4): 666-673.

BABTISTA, Bruna Olegário; Beuter, Margrid; Girardon-Perlini, Nara Marilene Oliveira; Brondani, Cecília Maria; Budó, Maria de Lourdes Denardin; Santos, Naiana Oliveira dos (2012), “A sobrecarga do familiar cuidador no âmbito domiciliar: uma revisão integrativa da literatura.” Rev Gaúcha Enferm., Porto Alegre (RS); 33(1):147- 56.

HERMES, Hélida Ribeiro; Lamarca, Isabel Cristina Arruda (2013), “Cuidados Paliativos: uma abordagem a partir