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altPesquisadores há muito superestimavam o papel dos nossos gentes na inteligência. Mas descobriram que nossas capacidades cognitivas não dependem da etnia, e são bem mais maleáveis do que se supunha. O incentivo focalizado pode ajudar as crianças de famílias com dificuldades sociais a fazerem usarem melhor o seu potencial.

Eric Turkheimer faz piada sobre as pessoas que acreditam que apenas as influências ambientais determinam o caráter de uma pessoa: “Elas logo mudam de ideia quando têm um segundo filho”, diz ele. Ele próprio, que é pai, fala a partir da experiência. Sua filha mais velha gosta de ser o centro das atenções, enquanto a irmã é tímida e mais reticente na escola.

Mesmo assim, Turkheimer duvida que apenas a genética possa fornecer a resposta completa. Como psicólogo clínico da Universidade da Virgínia em Charlottesville, ele encontrou várias pessoas cuja infância não foi tão tranquila quanto a de suas filhas. Muitos de seus pacientes vêm de famílias pobres.

Pode observar como a pobreza havia literalmente suprimido a inteligência dessas pessoas”, diz Turkheimer, de 56 anos.

Os cientistas normalmente usam gêmeos para aferir a influência dos genes por um lado e do ambiente pelo outro. Apesar disso, Turkheimer percebeu que esses estudos raramente envolvem gêmeos de lares problemáticos. O estresse, a negligência e o abuso podem ter um efeito dramático sobre a habilidade intelectual. E é exatamente esse fator que muitos estudos de natureza versus criação falham totalmente em abordar.

Preenchendo a lacuna

Turkheimer e seus colegas são os primeiros cientistas que preencheram essa lacuna. Seus três estudos feitos nos Estados Unidos sobre o assunto compararam a inteligência de centenas de gêmeos de contextos mais privilegiados com aqueles vindos de ambientes mais problemáticos Eles descobriram que quanto mais alta a situação socioeconômica da criança, maior era a influência genética na diferença de inteligência. A situação é muito diferente nas famílias mais desavantajadas socialmente, onde as diferenças em inteligência eram dificilmente herdadas.

O QI dos gêmeos mais pobres parecia ser quase exclusivamente determinado pela sua situação socioeconômica”, diz Turkheimer. A inteligência de uma pessoa só pode de fato florescer se o ambiente dá ao cérebro o que ele deseja.

Ulman Lindenberger, psicólogo de 49 anos no Instituto Max Planck de Pesquisa em Educação em Berlim, chegou à mesma conclusão. Segundo ele, “a proporção dos fatores genéticos na diferença de inteligência depende do quanto o ambiente em que a pessoa vive a permite realizar seu potencial genético.” Em outras palavras: sementes jogadas em solo infértil nunca se tornam árvores frondosas.

É exatamente isso que os pesquisadores da inteligência negavam até agora. Impressionados com seus estudos de gêmeos de classe-média e classe média-alta sem dificuldades, eles decidiram que as habilidades cognitivas estão em grande parte sob controle da genética, que o talento acadêmico é biologicamente determinado e pode se desenvolver em quase qualquer ambiente.

“A inteligência é altamente modificável pelo ambiente”

Enquanto isso, psicólogos, neurocientistas e geneticistas desenvolveram uma perspectiva bem diferente. Eles agora acreditam que a habilidade que chamamos de “inteligência” não é nem um pouco fixa, mas na verdade altamente variável. “Agora ficou claro que a inteligência é altamente modificável pelo ambiente”, diz Richard Nisbett, psicólogo da Universidade de Michigan em Ann Arbor.

Como resultado, nos últimos anos os pesquisadores reduziram suas estimativas sobre a influência que a genética tem sobre as diferenças na inteligência. O antigo número de 80% é ultrapassado. Nisbett diz que se você leva as diferenças sociais em conta, você descobrirá “que a contribuição da genética é no máximo de 50%”. Isso deixa uma proporção inesperadamente grande da inteligência de uma criança para ser moldada pelos pais, professores e educadores.

As descobertas com certeza deixarão contentes os pais que já enviaram seus filhos para boas escolas, os levam a aulas de violino à tarde, e os arrastam para museus nos finais de semana. “Então você não perdeu seu tempo, dinheiro e paciência com seus filhos afinal de contas”, diz Nisbett.

De tempos em tempos os pesquisadores descobrem que os genes de uma criança têm menos influência sobre o seu cérebro do que o ambiente – e o ambiente social é um dos fatores nisso. Cientistas de Boston, por exemplo, descobriram que as crianças que vivem perto de estradas e cruzamentos e são expostas a niveis mais altos de fumaça de exaustores têm QI três pontos menor do que as crianças da mesma idade que vivem em áreas com ar mais limpo. Isso acontece simplesmente porque a poeira microscópica e os poluentes podem chegar ao cérebro e afetar a capacidade das células nervosas de funcionar de forma adequada.

De forma parecida com a exposição aos poluentes, as crianças também sofrem mais como resultado de pressão mental, miséria, preocupação e negligência. O estresse crônico altera a forma como os neurotransmissores funcionam, inibem a formação de células nervosas e fazem com que o hipocampo se contraia.

Isso pode levar a diferenças identificáveis, como mostraram pesquisadores da Universidade de Cornell em Ithaca, Nova York. Eles descobriram que crianças estressadas de famílias pobres tiveram atuações até 10% piores em testes de memória do que crianças bem cuidadas de lares de classe média.

QI aumenta a cada ano de escola

Ao contrário, o QI aumenta a cada ano que a criança passa na escola. Durante a 2ª Guerra Mundial, algumas crianças na Holanda entraram mais tarde na escola por causa da ocupação nazista – com consequências significativas. “A média de QI dessas crianças foi de sete pontos a menos do das crianças que chegaram à idade escolar depois da ocupação”, diz Nisbett.

Oportunidades desiguais de educação eram e continuam sendo particularmente prevalentes nos Estados Unidos. A sociedade norte-americana negava a educação aos escravos negros, e impedia que eles tivessem acesso a livros. Mas as raças continuaram divididas mesmo depois da abolição da escravidão em 1865. Durante muito tempo, crianças negras frequentaram escolas especiais que tinham instalações terríveis. Então não é muito surpreendente que elas tenham ficado atrás quando finalmente tiveram acesso às escolas públicas que antes eram reservadas para crianças brancas.

Acadêmicos brancos dos EUA tentaram várias vezes afirmar que as diferenças de performance eram geneticamente determinadas. Nos anos 60, o psicólogo Arthur Jensen da Universidade da Califórnia em Berkeley se perguntou por que tantos alunos fracos eram negros. Como alguém podia negar que sua pouca inteligência era uma característica étnica, argumentou Jensen. Ele concluiu portanto que não havia motivo para tentar encorajar as crianças de grupos socialmente desavantajados desde pequenas.

O livro controverso “The Bell Curve” foi publicado em 1994. Seus autores, Richard Herrnstein e Charles Murray, alertaram contra facilitar o acesso às universidades para as minorias étnicas.

Um experimento não planejado na Alemanha

Esta é a linha de raciocínio que Thilo Sarrazin, membro do banco central da Alemanha, adotou recentemente ao sugerir provocativamente que os filhos de imigrantes turcos eram geneticamente menos aptos do que as crianças alemãs.

Apesar das declarações de Sarrazin, um experimento não planejado que aconteceu na Alemanha mostrou há muito tempo que a cor da pele não tinha influência sobre a inteligência. Depois da 2ª Guerra Mundial, muitos norte-americanos tiveram filhos com mulheres alemãs. Essas crianças com duas nacionalidades foram chamadas de “bebês da ocupação”. Algumas delas tinham pais norte-americanos de pele clara, e outras de pele escura. Em comparação com os Estados Unidos, isso não teve nenhuma influência em sua performance na escola.

Em 1961, Klaus Eyferth do Instituto de Psicologia da Universidade de Hamburgo viu isso como uma oportunidade única para descobrir as “características do desenvolvimento de crianças (birraciais)” ao compará-las com os “bebês da ocupação branca”. Eyferth fez testes de inteligência com 264 crianças e adolescentes, 181 de pele negra, 83 de pele branca. As crianças com pais brancos tiveram um QI médio de 97 pontos, as com pais negros, 96,5, valores tão próximos estatisticamente que negaram a noção de “características de desenvolvimento.”

Centenas de milhares de genes atuam nas habilidades cognitivas

A moderna pesquisa em genética mostra que não há nada parecido com uma fonte biológica da inteligência composta por um gene ou uma série de “genes da inteligência”. Aparentemente há centenas – se não milhares – de gentes responsáveis por determinar nossas habilidades cognitivas.

A capacidade de uma pessoa usar seu potencial genético pode de fato ser influenciada, especialmente se a pessoa é assistida e permite que os outros ajudem. O pesquisador da educação Anders Ericsson já mostrou que os mestres da música, por exemplo, não nascem assim. Estudando violinistas de Berlim, ele descobriu que nenhum que praticou menos de 10 mil horas havia se tornado um virtuose. Por outro lado, quase todos que praticaram por mais de 10 mil horas, se tornaram os principais violinistas aos 20 anos.

A analogia não serve só para os músicos. As noções de “gênio do xadrez” ou “gênio da matemática” são também meras metáforas que não têm nenhuma base biológica.

É verdade que de tempos em tempos se observa que as crianças de vários países da Ásia são bem melhores em cálculo do que as crianças no ocidente. Mas isso não tem nada a ver com genética – e tudo a ver com as atitudes. Em uma pesquisa, estudantes do Japão e do Canadá receberam tarefas matemáticas. Não importa como eles se saíram, os pesquisadores disseram a um grupo que eles tinham ido muito bem. Os outros foram informados que fracassaram totalmente. Os cientistas então deram outro conjunto de tarefas para os estudantes, e disseram que eles poderiam tomar o tempo que quisessem.

As reações dos estudantes mostraram diferenças culturais notáveis. Os canadenses eram aparentemente motivados pelo sucesso. Aqueles que foram informados que tinham ido bem no primeiro teste ficaram bem mais tempo fazendo a segunda tarefa do que os colegas canadenses que acreditaram que tinham ido muito mal na primeira rodada. Os japoneses se comportaram de forma bem diferente. Os que tiveram uma nota ruim no primeiro teste trabalharam por mais tempo e com mais diligência do que os que haviam sido elogiados. Parece, portanto, que a noção de fracasso os motivou.

Habilidades cognitivas são reflexo do ambiente

Os números não são a única coisa que você pode ensinar a partir da prática. O mesmo vale para as palavras. O vocabulário de uma pessoa é uma expressão do quanto seus pais e pessoas próximas falavam com ela quanto criança. De acordo com estudos feitos nos EUA, uma criança já ouviu cerca de 30 milhões de palavras até a idade de três anos. O número para crianças desavantajadas é de apenas 20 milhões. Isso portanto afeta seu vocabulário. A média das crianças de três anos de classe média sabe usar 1.100 palavras, enquanto crianças de famílias mais pobres só têm apenas 525 palavras à sua disposição.

As novas descobertas dos pesquisadores da inteligência apontam todas para a mesma direção: nossas habilidades cognitivas são um reflexo de nosso ambiente. “O QI baixo esperado de crianças filhas de pais de classe baixa pode ser aumentado se seu ambiente for suficientemente rico cognitivamente”, diz o psicólogo Nisbett.

As possibilidades práticas foram exploradas pelos psicólogos Sharon Landesman Ramey e Craig Ramey da Universidade de Georgetown em Washington, DC. Os Ramey usaram como sujeitos crianças filhas de pais extremamente pobres e com pouca educação formal. Num projeto, as crianças passavam os dias num berçário especial no qual havia um professor para cada criança e onde as tarefas recebiam um incentivo especial desde a idade de seis semanas.

Depois de três anos, essas crianças foram comparadas com as de um grupo de controle. O QI médio de meninos e meninas era de impressionantes 13 pontos a mais do que de crianças da mesma idade que não tinham recebido atenção especial.

Fonte: Bol Notícias

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